A fazenda estampada que reveste o peito, não mais tocado, está pra se romper.

Não mais por conta das batidas aceleradas de ansiedade, que a felicitavam na última primavera, mas por estar inchado de tantos beliscões que tem tomado.

De segunda a sexta-feira

A parte que vale a pena

Se inicia as seis da tarde.

Depois de adestrado e enlatado

O Banho e o jantar.

O céu vem a mais de quinze anos

Com a malícia de um mesmo olhar.

Em meio a lençóis e o frescor do cangote

A paz eterna dura 30 minutos.

Foto: Zalmaï Ahad

Foto: Zalmaï Ahad

Os pés sobre o chão são talvez uma das poucas coisas, que compartilham com os tempos de outrora.

Outrora… Como se fizesse tanto tempo.

E as expectativa do acordar, de que as imagens que os olhos esperam ao se abrirem sejam extensão do sonho diário de lembranças, se esvaem com o aproximar a uma fresta entre os remendos do barraco.

No lugar da estrada de chão batido, um negro pedregulho comprimido; onde deveriam ser as lavouras da família, espessas camadas de concreto; no lugar do nascer do sol, prédios.

Pela fresta, também se via, os passos curtos do pai, que em lugar de carregar sobre os ombros a enxada, que alimentava toda família, carregava agora um número pesado de vassouras de palha, que na maioria das vezes voltavam intactas. A mãe, ainda com a mão estendida, em um misto de benção com despedida, não escondia a aflição de que aquele gesto pudesse significar um adeus.

Embora toda essa atmosfera matutina, que faz o peito apertar com as saudades e mais ainda, com as lembranças do dia em que foram expulsos do paraíso, após o café ralo, os pés descalços nunca tornaram lembranças os passos das brincadeiras infantis, que tomavam a cabeça, traziam as gargalhadas e enganavam o estômago até o meio-dia.

Tainá Jara

No último dia 15, o acontecimento mais importante da cidade de Campo Grande, sem dúvidas foi o aniversário desta que vos escreve. Mas também houve a abertura do 7º Festival de Cinema de Campo Grande  – Festcine Pantanal.

É sempre bonitinho ver o CineCultura, que convenhamos, só tem sua alta temporada no esquizofrênico clima de janeiro, em conseqüência do festival, com tantos espectadores e convidados especiais, dá direito até a lugares reservados, além daquela agradável sensação de se estar respirando cultura em um espaço de consideráveis metros quadrados .
Essa abertura acabou acertando em cheio na despretensiosa tentativa de me presentear. Mas só percebi isso nos créditos finais do filme de abertura, dirigido pela então homenageada do festcine, Suzana Amaral.
” A Hora da Estrela” é um filme baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Com sua fotografia desbotada, sua linguagem popular e subjetivamente ácida foi, para mim, nostalgia à flor da pele.
Pois a primeira vez que o havia assistido foi no meu antigo colégio, quando tinha uns 13 anos. E o cheiro de jardim, o aconchegante tapete da biblioteca e a coleção “Salve-se Quem Puder”, vieram à minha mente. Porém a maior lembrança que tive ao revê-lo foi a da professora Matilde, que na época lecionava a matéria de Lingua Portuguesa para minha turma. Fiquei fascinada em perceber o quanto ela foi ousada ao exibir um filme tão socialmente polêmico para alunos que não paravam de fazer piadas com a pobrezinha da Macabéa, sem perceberem que todos nesse Brasil, inclusive nós, compartilhávamos de ao menos um pouquinho de sua ingenuidade e alienação.
Por ser uma saudosista declarada, esse momento pode ser considerado um grande presente de aniversário, já que nele vem refletido a importância e a diferença que algumas pessoas conseguem fazer em nossa vidas, no simples ato de dividir suas preferências decorrentes não só de sua bagagem cultural, mas principalmente daquilo que as tocam profundamente e de suas preciosas vivencias.
E agora  consigo perceber que em um país de Macabéas, algumas pessoas podem ter a sorte que eu tive, de reconhecer ao menos a superfície daquelas numerosas camadas que possui o significado da palavra herói.

Tainá Jara

Apostando em risos, campanha publicitária de verão consegue inovar.Apesar de estar habituada em ver nas páginas de revistas e jornais, os textos de meus futuros colegas de profissão dividindo espaço com um número bem considerável de anúncios publicitários, não costumo interagir, com esses, de forma que vá além da passagem superficial de olhos. Já que, em certos períodos da minha curta vida perdi minutos preciosos lendo campanhas que eu me negava a acreditar que haviam sido produzidas por indivíduos que passaram pelos menos quatro anos em um banco de universidade.

Porém desde 2007 desenvolvi um certo apreço pelas campanhas da marca Arezzo, que para o verão daquele ano desenvolveu uma série de fotografias da atriz Juliana Paes, com um figurino todo pin-up verão dos anos 60. Além de gostar de coisas retro, achei o máximo selecionarem uma artista com tantos atributos estéticos que reflete a mistura étnica das mulheres brasileiras.

Para o inverno de 2009 a Arezzo ousou de forma sutil, já que o ensaio, que contou com a atrizes Cléo Pires e, novamente, Juliana Paes, mostrou a dupla em poses para lá de sensuais, e olha que nem era uma campanha de produtos masculinos.

Neste ano a marca lançou a campanha Arezzo Alto Astral Alto Verão Alto Brasil 2010, e seguiu a risca o seu título na hora da produção, já que selecionou como modelos para o ensaio humoristas, que segundo o próprio fotógrafo Gui Paganini, que já havia sido o responsável pelas imagens da campanha anterior, são “seis mulheres que têm a cara do Brasil”. As tais provocadoras de intensas risadas são as atrizes: Andréa Beltrão, Fernanda Torres, Katiuscia Canoro, Maria Paula, Marisa Orth e Regina Casé, que desempenharam o papel de modelos de forma tão digna de elogios, quanto seus papéis cômicos.

É muito gratificante ver que a cabeça da publicidade, vem aos poucos modificante sua mentalidade com relação à imagem da mulher, embora seja feita com o principal objetivo de vender, é indiscutível o poder que ela pode ter com relação a mudança de conceitos estéticos, inclusive ensinando as mulheres brasileiras a assumir sua identidade nacional.

Tainá Jara

Não há na vida mais puro deleite
Do que retirar a casca e a semente
E expor-se apenas ao liquído ardente
Inteiramente nu e desprovido de enfeite.

Como o sumo amarelo e denso o leite
Do fruto da paixão tão envolvente
Sem qualquer semente e abertamente
Sem casca ou continente que o estreite.

Livre e pueril o fruto desse instante
De um gosto azedo e doce, e varonil
O sumo a jorrar como em um rompante.

Tão forte e de um amarelo febril
Concentrado e tão mais instigante
E apaixonadamente juvenil.

Obra: Abrãao e as frutas
Autora: Luciana P. V. de Mendonça

E na linha cronológica do Chico fui do Eu Te Amo para Olhos nos Olhos. Agora voltei ao Eu Te amo e estou desconfiada de que não tem nada de cronológico, é ciclo. Estou torcendo para não demorar muito para Olho nos Olhos.

Eu Te Amo
Chico Buarque

Ah, se já perdemos a noção da hora!
Se juntos já jogamos tudo fora,
me conta agora como hei de partir!
Ah! Se, ao te conhecer, dei pra sonhar,
fiz tantos desvarios,
rompi com o mundo, queimei meus navios…
me diz pra onde é que inda posso ir?
Se nós, nas travessuras das noites eternas,
já confundimos tanto as nossas pernas,
diz com que pernas eu devo seguir!…
Se entornaste a nossa sorte pelo chão,
se, na bagunça do teu coração,
meu sangue errou de veias e se perdeu…
Como? Se na desordem do armário embutido
meu paletó enlaça o teu vestido
e o meu sapato ainda pisa no teu…
Como? Se nos amamos feito dois pagãos,
teus seios ainda estão nas minhas mãos
me explica com que cara eu vou sair…
Não, acho que estás te fazendo de tonta,
te dei meus olhos pra tomares conta,
agora conta como hei de partir…

Olhos nos olhos
Chico Buarque

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos no olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
‘Ce sabe a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz