Foto: Zalmaï Ahad

Foto: Zalmaï Ahad

Os pés sobre o chão são talvez uma das poucas coisas, que compartilham com os tempos de outrora.

Outrora… Como se fizesse tanto tempo.

E as expectativa do acordar, de que as imagens que os olhos esperam ao se abrirem sejam extensão do sonho diário de lembranças, se esvaem com o aproximar a uma fresta entre os remendos do barraco.

No lugar da estrada de chão batido, um negro pedregulho comprimido; onde deveriam ser as lavouras da família, espessas camadas de concreto; no lugar do nascer do sol, prédios.

Pela fresta, também se via, os passos curtos do pai, que em lugar de carregar sobre os ombros a enxada, que alimentava toda família, carregava agora um número pesado de vassouras de palha, que na maioria das vezes voltavam intactas. A mãe, ainda com a mão estendida, em um misto de benção com despedida, não escondia a aflição de que aquele gesto pudesse significar um adeus.

Embora toda essa atmosfera matutina, que faz o peito apertar com as saudades e mais ainda, com as lembranças do dia em que foram expulsos do paraíso, após o café ralo, os pés descalços nunca tornaram lembranças os passos das brincadeiras infantis, que tomavam a cabeça, traziam as gargalhadas e enganavam o estômago até o meio-dia.

Tainá Jara