No último dia 15, o acontecimento mais importante da cidade de Campo Grande, sem dúvidas foi o aniversário desta que vos escreve. Mas também houve a abertura do 7º Festival de Cinema de Campo Grande  - Festcine Pantanal.

É sempre bonitinho ver o CineCultura, que convenhamos, só tem sua alta temporada no esquizofrênico clima de janeiro, em conseqüência do festival, com tantos espectadores e convidados especiais, dá direito até a lugares reservados, além daquela agradável sensação de se estar respirando cultura em um espaço de consideráveis metros quadrados .
Essa abertura acabou acertando em cheio na despretensiosa tentativa de me presentear. Mas só percebi isso nos créditos finais do filme de abertura, dirigido pela então homenageada do festcine, Suzana Amaral.
” A Hora da Estrela” é um filme baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Com sua fotografia desbotada, sua linguagem popular e subjetivamente ácida foi, para mim, nostalgia à flor da pele.
Pois a primeira vez que o havia assistido foi no meu antigo colégio, quando tinha uns 13 anos. E o cheiro de jardim, o aconchegante tapete da biblioteca e a coleção “Salve-se Quem Puder”, vieram à minha mente. Porém a maior lembrança que tive ao revê-lo foi a da professora Matilde, que na época lecionava a matéria de Lingua Portuguesa para minha turma. Fiquei fascinada em perceber o quanto ela foi ousada ao exibir um filme tão socialmente polêmico para alunos que não paravam de fazer piadas com a pobrezinha da Macabéa, sem perceberem que todos nesse Brasil, inclusive nós, compartilhávamos de ao menos um pouquinho de sua ingenuidade e alienação.
Por ser uma saudosista declarada, esse momento pode ser considerado um grande presente de aniversário, já que nele vem refletido a importância e a diferença que algumas pessoas conseguem fazer em nossa vidas, no simples ato de dividir suas preferências decorrentes não só de sua bagagem cultural, mas principalmente daquilo que as tocam profundamente e de suas preciosas vivencias.
E agora  consigo perceber que em um país de Macabéas, algumas pessoas podem ter a sorte que eu tive, de reconhecer ao menos a superfície daquelas numerosas camadas que possui o significado da palavra herói.

Tainá Jara